Tá difícil colocar Puccinelli na cadeia
Mudanças em depoimentos, pressão ao coordenador do GAECO e muitos interesses, conturbam as investigações da operaç&

Mudanças em depoimentos, pressão ao coordenador do GAECO e muitos interesses, conturbam as investigações da operação Coffee Break.

Campo Grande - Suspeito de direcionar depoimento de uma das testemunhas-chave das investigações da Operação Coffee Break, o advogado Antonio Trindade, teria grande proximidade com o coordenador do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), Marcos Alex Vera. Em áudio gravado pelo guarda municipal Fabiano de Oliveira Neves, o advogado relata diversos diálogos com o promotor e também sua proximidade com o prefeito Alcides Bernal (PP).
Em um dos trechos, Antonio afirma que conversou com João Vicente, do escritório do advogado Renê Siufi, responsável pela defesa do ex-governador André Puccinelli (PMDB). Vicente revela que foi ao Ministério Público pegar cópias do inquérito elaborado por Marcos Vera, levando uma petição e acompanhado de um pen drive para armazenar os arquivos.
Segundo o advogado, a secretária do promotor recebeu o pedido, levou ao Marcos Alex e voltou cerca de 20 minutos depois com a seguinte recomendação: “eu vou entregar, mas vou pedir para não passar pra ninguém que vai atrapalhar a investigação”. Em seguida, ele conta que conversou com o promotor que, talvez por inexperiência, revelou que omitiu informações importantes para a defesa de André Puccinelli.
“Daí ele contou: ‘oh, acabou de vir o pessoal do Renê querendo cópia. Eu não dou. Indeferi, se quiser que entre com mandado de segurança. Vai se virar, mas eu não dou e se vier com mandado de segurança, vai sair o que eu quiser. É segredo e acabou’. O desembargador Carlos Eduardo deu a liminar, ele foi lá e deu o que ele quis”, relata.
Em outros momentos, Antonio e Fabiano discutem uma confusão de informações que levou a equipe do governador Reinaldo Azambuja (PSDB) a pressioná-lo pela verdade, já que acreditava ter sido incriminado em depoimento ao Gaeco. O advogado relata que foi questionado se tinha orientado um ‘cara’ para dizer que Reinaldo pagou R$ 4 milhões a vereadores.
Fabiano explica que nem conhecia o tucano, que nem era candidato ainda à época da cassação de Bernal, mas que havia falado em governador como referência ao administrador da gestão anterior, André Puccinelli. Ele dá a entender que, em depoimento, teria dito que o prefeito afastado Gilmar Olarte pagou para a ‘turma de Puccinelli’ votar pela cassação.
Antonio confirma a versão e revela que, inclusive, procurou Marcos Alex para tomar satisfação. De acordo com ele, o promotor deu a seguinte resposta: “não tem nenhuma referência sobre isso e, se tiver, eu aviso. Que eu me lembro não, mas se tiver alguma referência eu te aviso. Milene [secretária do MPE] me ligou e disse ‘o que o doutor te passou é aquilo lá mesmo’”.
Direcionamento das investigações
O áudio divulgado por Fabiano também mostra um suposto esquema para incriminar o ex-governador André Puccinelli. Ligado ao vereador cassado e secretário de Governo Paulo Pedra, o advogado conta que esteve com Bernal desde que ele era deputado estadual, sempre ajudando no gabinete e até, muitas vezes, assumindo o papel do parlamentar escrevendo indicações, entre outras atividades.
Para o guarda municipal, ele garante que o prefeito irá cumprir o acordado, que seria um acerto trabalhista para a mãe do denunciante, e dá dicas de como ele deverá depor ao Ministério Público. Fabiano diz veementemente que Puccinelli nunca participou de reunião na chácara do ex-secretário de Governo, Rodrigo Pimentel, mas é orientado a garantir a presença dele no local.
Revelando ter conhecimento de algumas informações da investigação, Antonio diz que alguém já mencionou o suposto encontro e dá dicas para o guarda municipal não cair em contradição. “Um cara falou que fez reunião na chácara do Pimentel. Qual que é a minha ideia? Só fala o seguinte: ‘eu estava saindo para fazer compra e vi ele chegando. Quando eu voltei, uma hora depois, ele não estava mais lá. Não sei se entrou, se não entrou’. Acabou, pronto. Não fala mais nada”.
Para o TopMídiaNews, Fabiano afirmou que nunca houve acordo para a cassação de Bernal e que iria alterar o depoimento que prestou ao MPE. Segundo ele, as conversas eram sempre de cunho político, falava-se em uma possível queda do prefeito e possíveis médias administrativas a serem tomadas, mas nunca de esquema. “Ninguém falava em armação pra derrubar o Bernal. [...] A queda dele era esperada pela inabilidade política, e incompetência administrativa”.
Acesso ao inquérito
O advogado Renê Siufi confirma possível obstrução do acesso às informações do Gaeco. “Houve, tanto que entrei com representação contra o promotor. Quando entrei com o mandado de segurança, o Fabiano já tinha sido ouvido e o promotor não me passou, não forneceu todos os documentos que o desembargador determinou. Estou pesando em tomar outra providência”.
Segundo ele, a primeira denúncia foi arquivada. “A Corregedoria do Ministério Público arquivou a minha denúncia, mas eu recorri para ir ao Conselho Nacional do Ministério Público. Como ele desobedece uma ação judicial sendo um promotor? Estou pensado no que vou fazer agora, mas a história bate com o que aconteceu. Eu podia até não acreditar, mas aconteceu”.
Em relação à suposta tentativa de incriminar o ex-governador André Puccinelli, ele destaca a fragilidade do primeiro relatório elaborado por Marcos Vera. “O relatório foi baseado no achou porque não tem prova nenhuma. Só fala. Já pediram telefone e o pessoal do Bernal não quis entregar. Se o pessoal do Bernal não deve porque esconde? Tudo que o Bernal diz é verdade e o resto é mentira, não vale nada”.
Renê também destaca uma possível representação de André contra os responsáveis pelo direcionamento dos depoimentos. “Ele estava sendo incriminado. Pediram que ele fosse denunciado naquele relatório, mas quando você vai ver é mentira. Ele forjou uma fala que não teve. Disse que ele foi à chácara sendo que não viu. Isso é um absurdo. Ainda não conversei com ele, mas acho que ele também vai querer uma providência”.
Outro lado
Procurada pela reportagem, a assessoria do MPE informou que o promotor Marcos Alex Vera vai se pronunciar oficialmente em coletiva de imprensa na sede do GAECO ainda hoje.
