PCC chega a movimentar R$ 200 mi por ano
O jornal Folha de S.

O jornal Folha de S. Paulo publicou uma matéria que mostra como funciona a maior organização criminosa da América Latina, e uma das maiores do mundo – o PCC.
A facção funciona como uma empresa. A cada 60 dias cada integrante é obrigado a comprar vinte bilhetes de uma rifa e que paga R$ 30 cada. O primeiro prêmio para o ganhador foi uma casa avaliada em R$ 240 mil.
O escalão maior da organização: Marcola, Abel da Vida Loka, Gegê do Mangue, Betinho Tiriça, Cego, Biroska, Julinho Carambola e Paca.

Folha de S. Paulo - Os agentes penitenciários assistiram em agosto de 1993, das muralhas da Casa de Custódia de Taubaté, a mais importante partida de futebol do sistema prisional paulista. Naquele dia, entrou em quadra um time batizado de Primeiro Comando da Capital, formado por oito criminosos de São Paulo transferidos por mau comportamento.
Ninguém ali deve ter imaginado que aquele grupo se tornaria a maior organização criminosa do país, responsável pelo “controle” de quase 90% das prisões do Estado de São Paulo e detentora de uma estrutura e movimentações financeiras similares às de grandes empresas. Comparáveis às das máfias.
Documentos apreendidos pela polícia e pelo Ministério Público ao longo dos últimos cinco anos, muitos deles inéditos e aos quais a Folha teve acesso, revelam um império criminoso que ultrapassou as fronteiras de São Paulo e do país para controlar um tráfico de drogas que movimenta cerca de R$ 200 milhões ao ano.
Toda a contabilidade criminosa é registrada digitalmente por contadores selecionados a dedo. Para evitar que integrantes caiam nas mãos da polícia com essas informações, a facção oferece salário fixo (inicial de R$ 7.000), com direito “a carro e um apê”.
Em contrapartida, o trabalho exige total discrição. “Esse irmão aí não pode roubar e não pode sair pra balada”, explica um dos empregadores, em telefonema gravado pela polícia. Há preferência sempre por pessoas “ficha limpa”.
Os funcionários mais escolarizados da facção chegaram a criar um “idioma” próprio, para dificultar o trabalho da polícia em caso de prisão. “WHS em HOP e os FGT da SCC ROL e só GMC OVO”, diz um trecho de uma das cartas apreendidas e que a polícia ainda tenta decifrar.
Numa denúncia apresentada à Justiça em 2013 contra 175 pessoas suspeitas de fazer parte da facção, investigação essa que durou três anos e meio, o Ministério Público compara o PCC a uma empresa privada. Nessa analogia, segundo os promotores, o “presidente do conselho deliberativo da organização criminosa” seria o detento Marco Willian Herbas Camacho, o Marcola, preso na penitenciária 2 de Presidente Venceslau, cidade no extremo oeste do Estado, a 611 km de São Paulo.
O conselho gestor dessa facção seria composto por oito criminosos. Todos altamente perigosos e integrantes da chamada Sintonia Final.
A Folha obteve imagens da cúpula do PCC em Presidente Venceslau. Os vídeos revelam a ascendência de Marcola sobre os demais, que cercam o chefe com reverência.
A polícia e a Promotoria conseguiram elencar 13 divisões, ou áreas de atuação, ligadas à cúpula da facção (veja quadro). São presos de confiança subordinados ao primeiro escalão e responsáveis pelo contato com as bases.
Um dos setores mais importantes é chamado de “FM”. Trata-se de uma forma de identificar os pontos de venda de droga pertencentes à “família”. O lucro do tráfico vai para a facção, e não para seus integrantes.
Só na capital e na região do ABC foram identificadas pela polícia cinco grandes regiões, subdivididas em 51 pontos de venda. Nesses locais, segundo dados apreendidos, a facção arrecadaria R$ 72 milhões ao ano. Isso não inclui todos os demais pontos de drogas da cidade, que pertencem a traficantes obrigados a comprar o produto da organização criminosa.
No atacado, o monopólio da venda de drogas é do PCC. Mas essa não é a única forma de a facção ganhar dinheiro.
Todo criminoso “batizado” que estiver em liberdade é obrigado a pagar uma mensalidade de R$ 600. Para adquirir o status de “irmão”, o candidato precisa ter um “currículo” na vida do crime, além da indicação de alguém já associado ao PCC. Cada indicação deve ter o aval de mais dois membros da facção, que fazem o batismo.
Os membros do grupo que estão atrás das grades são obrigados, a cada dois meses, a comprar 20 números de rifas por R$ 30 cada bilhete –o que soma os mesmos R$ 600.
Contabilidade apreendida em 2015 mostra que foi arrecadado R$ 1 milhão em uma única rifa. Os sorteios prometiam, segundo arquivos apreendidos pela polícia, casas e carros aos sortudos. Em uma rodada realizada entre junho e julho de 2014 foram sorteados os seguintes prêmios:
1º prêmio - Uma casa nova avaliada em R$ 240 mil
2º prêmio - Um Hyundai HB-20 Comfort Style 1.6 Flex 4p Mec (R$ 41.186,00)
3º prêmio - Um Classic Ls VHC Flex Power 1.0 16v 4p (R$ 28.034,00)
4º prêmio - Um Palio Economy Fire Flex 1.0 8v 4p (R$ 26.686,00)
5º prêmio - Um Celta Life MPFi Flex Power 1.0 8V 4p (R$ 24.855,00)
Há outros pequenos negócios da facção. Por exemplo, a comercialização de “jumbos” (combos para os presos com comida e produtos de higiene) e o monopólio dos cigarros comprados e vendidos, que funcionam como moeda corrente nas prisões.
Propina
Como as principais organizações criminosas mundiais, o PCC tem influência no Estado, por meio de uma rede de policiais, políticos e até membros do Judiciário corrompidos. Em outros casos, são os agentes públicos que extorquem a facção.
Para tratar de casos de extorsão, o PCC tem advogados especializados e dinheiro disponível para o pagamento de propina. Tudo organizado pelo “diretor” da facção responsável pelo setor “Gravata”.
Se o bandido for preso em algum serviço para a facção, os custos com a propina para liberá-lo são arcados pela “família”. Mas, se o criminoso for pego em uma ação particular, se der “bandeira”, os valores pagos à polícia corrupta precisam ser ressarcidos futuramente pelo integrante.
Um investigador da Polícia Civil exigiu da facção R$ 300 mil para não prender, em março de 2005, Rodrigo Olivatto de Morais, 28, enteado de Marcola. Chegou-se a levantar a hipótese de que o crime pudesse ter motivado os ataques que aconteceriam um ano depois.
Depoimento de ex-integrante da cúpula da facção, prestado à Promotoria em 2013 e obtido com exclusividade pela Folha, no entanto, reforça a versão de que as transferências foram o estopim dos ataques às forças de segurança. Segundo a declaração, criminosos pagaram a policiais civis para obter a informação de que ocorreria a transferência de 765 integrantes da facção para o presídio de Presidente Venceslau, onde o maior controle dos presos prejudicaria tanto os negócios quanto a vida pessoal da cúpula do PCC.
“Não foi necessária ordem para os ataques e para as rebeliões simultâneas nos presídios do Estado, pois Balengo [Carlos Alberto da Silva], sintonia final na rua à época, já estava orientado que, se houvesse a transferência, deveria determinar ataques”, diz trecho do documento ao qual a Folhateve acesso.
Integrantes da cúpula da Polícia Civil ouvidos pela reportagem afirmam que a versão é verossímil. Segundo eles, durante os ataques, um investigador do Deic (departamento que investiga o crime organizado) chegou a ser preso repassando informações a integrantes da facção criminosa.
Alcance internacional
A polícia detectou que o PCC usa empresas de fachada, criadas em nome de laranjas contratados por cerca de R$ 3.000 mensais, e contas bancárias criadas em nome dessas empresas e laranjas, para lavar o dinheiro.
Os dados arrecadados só nessas contas, por onde passam dinheiro do tráfico da facção e de integrantes da facção (o dinheiro de um é separado de outro), revelam cerca de R$ 100 milhões anuais enviados para fora do país. As quantias rastreadas eram enviadas para empresas da China, de onde eram repassadas para os EUA, e, por fim, voltavam ao Brasil. O destino final desses recursos não foi detectado ainda pela polícia brasileira.
Essa operação foi criada pelos criminosos depois que a polícia e o Ministério Público conseguiram bloquear uma série de bens ao identificar lavagem de dinheiro. Para dificultar um eventual novo bloqueio de bens como casas e comércio eles criaram essa sofisticada operação internacional, que chega a usar uma das corretoras de valores investigadas na Operação Lava Jato.
O grupo também adota um complexo sistema de associação com quadrilhas internacionais para enviar drogas para o exterior. “Elas [PCC e outras organizações] interagem como se fossem empresas mesmo”, afirma o delegado Fabrizio Galli, da Delegacia de Repressão a Drogas da Polícia Federal em São Paulo.
Em um dos casos investigados pela PF, a droga da facção é distribuída na Europa pela máfia calabresa N’drangheta, uma das mais atuantes na Itália.
A droga entra por terra pelas fronteiras com a Bolívia, Colômbia e Paraguai. Sai de São Paulo via navio em uma rota que, muitas vezes, inclui a África do Sul como destino intermediário. Quanto mais seguro o porto final da mercadoria, maior o lucro. O quilo da cocaína que sai da capital paulista valendo U$ 5.000 (cerca de R$ 17,5 mil), por exemplo, pode ser revendido por U$ 40 mil (em torno de R$ 140 mil) em Londres, na Inglaterra.
Para despachar a cocaína em contêineres são usadas empresas transportadoras, alguma delas consolidadas no mercado, que também fazem remessas de produtos lícitos para o exterior.
“Eles [grupos criminosos, incluindo o PCC] se utilizam do conhecimento adquirido dentro da empresa com funcionários, que às vezes nem conhecem a atividade ilícita, para compreender como é feito o trabalho. Aos poucos, vão arregimentando pessoas [como despachantes aduaneiros e contadores] e trazendo eles para dentro do tráfico”, afirma o delegado Galli.
A contratação de contadores sem perfil criminoso é um exemplo do aspecto mais empresarial do PCC. Diante da modernização da facção, os antigos chefes, em sua maioria assaltantes violentos, viraram obsoletos.
Dos oito fundadores do PCC de 1993, por exemplo, apenas um continua vivo. José Márcio Felício, o Geleião, foi expulso da facção e há uma ordem de morte decretada contra ele pelos atuais chefes do grupo. Todos outros fundadores foram mortos na disputa pelo poder.
As falhas cometidas por criminosos da facção hoje são discutidas em tribunais. Em teleconferências com chefes da organização, são decididas as penas, que podem variar de uma surra até mortes cruéis. Essa “ordem” criminosa evita que os membros do grupo entrem em guerra novamente.
Desde 2006, a cúpula continua praticamente a mesma. Essa estabilidade do topo da hierarquia, aliada ao perfil mais empresarial da facção, é apontada por especialistas em segurança como um dos motivos para que novas ações violentas ocorridas há dez anos não voltem a acontecer.

